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telhado de vidro



Em algum lugar do futuro

Das últimas vezes, não fiz as unhas no salão. Também não fui eu que as fiz, foi alguém que vive disso, mas não foi no salão. Hoje fui ao salão, ao mesmo de antes, confortável, com manicures de luvas, instrumentos esterilizados e embalados, café, chá, água e algo mais, talvez, não sei se tem. Acho que já vi rolar um biscoitinho, mas, como não bebo café... Procurei a manicure de sempre. Não marquei com antecedência, ela estava ocupada. Eu não queria esperar, tinha que ser naquela hora. Dei sorte, às vezes não há ninguém disponível. A atendente me disse que havia uma moça, novata, que poderia me atender, perguntou se eu queria experimentar ou aguardar mais um pouco. Eu quis experimentar. E para minha surpresa ela fez unhas admiráveis, infinitas vezes melhor do que a outra manicure, se é que é possível. Mas fez. Melhor ainda: fez muito bem e muito rápido. Quando eu já estava no caixa, pagando a conta - um pouquinho mais alta, é verdade - a moça chegou com um cartãozinho (eu havia elogiado o trabalho dela ) e me ofereceu, para que eu a procurasse de uma próxima vez. Saí do salão achando graça de mim mesma. Tal como a nova manicure, as possibilidades da vida são infinitas. Há sempre alguma coisa melhor que nos espera em algum lugar do futuro. Sempre. Bom, há também pior. Mas, hoje, graças à manicure, penso pelo lado positvo. Penso mesmo. O melhor de tudo é ser verdade. Porque isto, pensar desta forma, positivamente, é tão raro pra mim...

     

 



Escrito por Ofelia às 19h12
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Acabei perdendo o sono porque, depois de muito tempo sem assistir ao programa, vi hoje o Programa do Jô. E lá estava Marcos Caruso, de quem gosto muito como ator e autor de teatro. Dei boas risadas. Ele é bom em tudo o que faz e fiquei curiossísima para assistir à sua montagem de As Pontes de Madison. Em filme eu vi duas vezes e me apaixonei. Lindo. Agora Caruso repete não o filme, mas a adaptação do livro, no teatro, ao lado da ex-mulher Jussara Freire, outra atriz maravilhosa. Retenho cada cena, quase milimetricamente falando, do filme americano na cabeça. Gostaria muito de ver Caruso e Jussara no teatro. Ele próprio avisa que o jeito brasileiro de ser é diferente do americano. Daí que a peça terá um outro tratamento. Gostaria de ver qual. Há coisas que nos parecem tão perfeitas que outros não conseguirão repeti-la. Caso de As Pontes de Madison, com Clint Eastwood e Meryl Streep. A cena dos dois dançando na cozinha é de uma beleza... Clint e Meryl parecem feitos um para o outro... Como será a versão Caruso-Jussara? Claro, vão seguir o livro que inspirou o filme. Mas morro de curiosidade.

Taí um filme relativamente triste, um filme de escolha evidente, mas feliz pelo que foi vivido.

Torço para que a temporada seja longa.



Escrito por Ofelia às 03h25
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         Direção: Yves Boisset

Ano: 1972
País: Alemanha, França, Itália
Gênero: Thriller
Duração: 120 min. / cor
Título Original: L'Attentat 
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Michel Piccoli, Gian Maria Volonté, Jean Seberg, Michel Bouquet, Bruno Cremer, Daniel Ivernet, Philippe Noiret, François Périer, Roy Scheider, etc.   

Não, por favor, não interpretem errado, não há qualquer sugestão, a mínima idéia que seja de violência em mim ao lembrar deste filme. Muito ao contrário. Quando o vi nos anos 70, eu me deixei ficar presa à poltrona, inconformada com o destino do personagem de Jean-Louis Trintignant (tão bonito...), que sofre um atentado, desaparece, ninguém fala sobre o assunto, é como se nada tivesse acontecido, a vida volta ao normal e tudo fica como dantes no quartel de abrantes. Meu senso de justiça, embora frente a uma tela de cinema, me deixou estatelada, sei lá se esta é a palavra acertada. Mas fiquei muito mal. Gosto de filmes felizes. Ou, quando não são felizes, que tenham soluções até tristes, mas amenas. Porque num filme a gente acompanha tudo, do início ao fim.

Sempre que me deparo com uma injustiça sufocante, do tipo que prega a gente na poltrona, eu me lembro deste filme. Sempre.

Não sei se há cópias por aí, eu não gostaria de revê-lo. Não sei como reagiria hoje, mas não gostaria de vê-lo novamente, não mesmo. Se alguém estiver interessado em ver, garanto que vai entender bem a sensação de impotência, de desalento que toma conta de quem o assiste até o fim. Eu me sinto hoje como se tivesse acabado de ver o filme. A sensação é a mesma, acachapante. De que o poder pode tudo.

Algumas coisas são duras demais. Na tela ou na vida.

Não a violência física, mas a psicológica e espiritual. Desumana.



Escrito por Ofelia às 02h26
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Vale a pena ler de novo

       Canção das mulheres

              Lya Luft        
       
       Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome
       nos braços sem fazer perguntas demais.
       
       Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá
       embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei
       menos porque estou quieta.
       
       Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se
       irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva
       saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
       
        Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de
        mim, nem se aproveite disso.
        
        Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco
        mais de mim, porque também preciso poder fazer
        tolices tantas vezes.
       
       Que se estou apenas cansada o outro não pense logo
       que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga
       que reclamo demais.
        
       Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e
       ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo
       à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas
       talvez seu medo ou sua culpa.
       
       Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia
       daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa
       dele, ou que não o amo mais.
       
       Que se estou numa fase ruim o outro seja meu
       cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo "Olha que
       estou tendo muita paciência com você!"
       
       Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a
       diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar
       essa porta necessária que se abre para mim, por mais
       tola que lhe pareça.
       
       Que quando sem querer eu digo uma coisa bem
       inadequada diante de mais pessoas, o outro não me
       exponha nem me ridicularize.
       
       Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o
       outro não venha logo atrás de mim reclamando: "Mas
       que chateação essa sua mania, volta pra cama!"
       
       Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o
       outro não comente logo: "Poxa, mais um?"
       
       Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a
       graça e perco a compostura, o outro ainda assim me
       ache linda e me admire.
       
       Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me
       considere sempre disponível, sempre necessariamente
       compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo
       ser nada disso.
       
       Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às
       vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a
       mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável
       e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa -
       uma mulher.
       



Escrito por Ofelia às 20h47
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Sustos      

Cada susto tem um comprimento e um valor.

Voltar da Barra pela Linha Amarela e encontrar o túnel da Covanca completamente às escuras foi uma experiência totalmente inusitada. Túnel comprido, muitos carros, caminhão à direita quase sem luz, velho e lento, deixando escapulir coisas que me pareceram retalhos de pano. Estranhíssimo. Todo mundo diminuiu a marcha, até os loucos eventuais que não sabem ficar sossegados em uma única pista por muito tempo.

Um pouco antes, na agência do correio, eu já havia subscritado o envelope de Sedex para o interior da Bahia quando a atendente me disse que custava R$ 36,70! Por duas folhas de papel! Foram as duas folhas de papel mais caras que já paguei. Minto. Um cópia de qualquer certidão não sai por menos de R$50,00.

Que abuso. Tive vontade de voltar atrás, mas às vezes não dá, como dessa vez não deu. O envelope plástico estava subscritado, fechado e carimbado. Da próxima vez é melhor perguntar primeiro.

Mas o que fazer na Linha Amarela, no meio do caminho? Quando o sinal luminoso nos avisa para acender a luz no túnel, que elas estão apagadas, estamos a poucos metros da escuridão.

A vida é cheia de surpresas, caras surpresas, longas surpresas, e escuridão (quase) repentina.

Apesar do vento, do frio, e da água do mar que presumi gélida, os surfistas surfavam, levavam a vida nas ondas. Deve ser bom.



Escrito por Ofelia às 18h59
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