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telhado de vidro Som & Fúria
Som & Fúria acabou tão depressa quanto uma aula bem dada, tal como a do meu ex-professor de matemática, Jairo Bezerra, que adivinhava as dúvidas dos seus alunos. Foi com ele que aprendi que “2 é diferente de zero desde pequenininho” e que “um polinômio tem, no mínimo, dois termos”. Pra mim, polinômio estava acima de trinômio, daí ser poli. Estava errado. E muita gente errou esta questão na prova do concurso para o Instituto de Educação. Isto é, quem não estudou com o Jairo. Mas por que motivo me lembro dele? Porque vi um deslumbrante Felipe Camargo na série Som & Fúria. E lembrei dele no papel de Marcos, em Anos Dourados, série tão bonita quanto sua música de abertura, do maestro Tom Jobim. Série que mostrou tão bem o Instituto de Educação, as normalistas e seus lindos uniformes, e deixou o mulherio que não aproveitou a vida como deveria em polvorosa. Teve gente que, na ocasião, foi parar no analista. Eu era razoavelmente jovem quando conheci Felipe Camargo em uma entrevista. Ele e Malu Mader, a Lourdinha, da série de Gilberto Braga. Felipe me contaria mais tarde, ao fazer Mandala, que achava Vera (Fischer) linda. Eu o achei bem empolgado e perguntei se o Perry (Salles, marido dela na época, que fazia parte do elenco) não ficava com ciúmes. Ele riu, disse que não, que Perry até o ensinava como segurar Vera (em cena, profissionalmente). E deu no que deu, não me surpreendi com o romance dos dois.
A fila andou depressa, Perry morreu há pouco tempo, o filho de Felipe e Vera já é rapaz, de 16 anos, se não me engano. Quanto tempo faz desde que vi Felipe Camargo a primeira vez? Não sei, não tenho idéia. Mas acho que o tempo só o ‘enfeitou’, como diria minha ex-cunhada. Ele esteve uma beleza, com maturidade cênica de fazer gosto (ele e Andréa Beltrão com a mesma densidade, e um elenco muito bom).
Aliás, eu me pergunto o que não foi de dar gosto em Som & Fúria? Foi tudo tão bom, ágil, sem tragédia, apesar das tragédias encenadas... Sensibilidade, inteligência e humor aliados ao talento, qualidades mágicas, apaixonantes.
O tempo? Pois é, o tempo é como a linda cena dos fantasmas em Everyone Says I Love You, de Woody Allen, que revi há dias:
"Divirta-se É mais tarde do que parece Os anos se vão Mais rápidos que um gatilho”.
Taí o Gabriel, filho de Vera e Felipe, que não me deixa mentir.
Escrito por Ofelia às 02h21 [ envie esta mensagem ]
Escrito por Ofelia às 01h07 [ envie esta mensagem ] Hoje não vi minha querida novela das oito/nove. Estava na casa do meu irmão e lá ninguém vê. Em compensação, assisti a um pedaço de Um convidado bem trapalhão. Quero dizer, revi parte do filme. Fiquei olhando pra Claudine Longet cantar e fiz um esforço enorme para me lembrar do nome dela. Quando deixei pra lá, o nome apareceu na minha cabeça. Voz miúda, mas muito bonitinha. Peter Selles me fez rir. Mas o filme, quando ele deixa a cena, não tem lá essa graça não. Saí, fui ao Extra comprar pouquinha coisa. A caixa do supermercado me deu boa-noite e me disse que meu nariz estava vermelho. Já havia me esquecido. À noite eu não uso o filtro solar fator 60 que esconde essa desgraceira que o Efurix fez no meu nariz a partir de 11 de maio. A caixa do supermercado pensou que eu estivesse com gripe. Expliquei. Ela ficou besta. Eu também estou besta. Há mais de dois meses o nariz está assim. Esteve pior, é verdade, mas ainda não melhorou. Não posso sequer pensar em uma nesga de sol. É horrível ficar dois meses sem tomar sol. Mas vamos que vamos, na torcida, para que a cor da pele volte ao normal. E melhor, que o pequeno edema localizado também vá embora. A médica disse que em algumas pessoas acontece esse edema, peles sensíveis, alergias. Vamos ver. Mas que é odioso isso é. Falei com a caixa do supermercado que esperava vê-la com meu nariz na cor normal da próxima vez. Ela disse que tomara que eu não voltasse no final do mês. Perguntei se ela estava indo embora. Ela confirmou. Perguntei se era por vontade própria, ele fez uma cara de quem está assim, como direi, não aguentando mais. Deve ser duro mesmo. O mundo é bom, a felicidade até existe. E devo estar passando essa cara pras pessoas. Que bom.
Escrito por Ofelia às 00h38 [ envie esta mensagem ]
Escrito por Ofelia às 16h15 [ envie esta mensagem ] Os últimos dias de Hitler Domingo fui almoçar com meu irmão. Ele gravou um dvd pra mim e depois insistiu para que eu assistisse com ele a Os últimos dias de Hitler. Eu reagi muito. Olhar uma foto de Hitler, coisa sem qualquer movimento, já causa repulsa. Imagina o que é ver Hitler com voz, movimentos, mão tremendo por conta do Parkinson. Um horror. O filme todo é um horror. Bem que minha cunhada me perguntou: “Vc está conseguindo ver isso?” Vi porque meu irmão insistiu para que eu visse. Vi para ver, com olhos incrédulos, a mulher de Goebbels matar, ela mesma, um a um os filhos, que não eram poucos. Coisa que ele, o pai, não teve coragem de fazer. Ou, sei lá, deixou o encargo pra ela porque ela era a mãe. O filme é o mal sobre o mal = mal. Nada tem que faça alguém gostar daquilo. Os personagens parecem tão irreais de tão maus. Mas, surpreendentemente, ao final do filme, Goebbels dita seu testamento para a secretária de Hitler, a mesma que escapou dos russos e surge no início do filme para contar a história toda. E ele diz mais ou menos o seguinte: “Um dia as mentiras terminarão e a luz iluminará a escuridão. Seremos então todos puros e imaculados.” Fiquei sem entender nada. Por que um homem, se é que se pode chamar aquilo de homem, de ser, diria uma coisa desse tipo? A que mentiras ele se referia? O mal não estava com ele, do lado dele, do partido que ele tomou? Nem que visse o mesmo filme várias vezes eu conseguiria descobrir. E um filme como esse não dá pra ver sequer meia vez de novo. Escrito por Ofelia às 15h39 [ envie esta mensagem ] Além do bastidor (com ironia!)
Começou com linha verde. Não sabia o que bordar, mas tinha certeza do verde, verde brilhante. Capim. Foi isso que apareceu depois dos primeiros pontos. Um capim alto, com as pontas dobradas como se olhasse para alguma coisa. Olha para as flores, pensou ela, e escolheu uma meada vermelha. Assim, aos poucos, sem risco, um jardim foi aparecendo no bastidor. Obedecia às suas mãos, obedecia ao seu próprio jeito, e surgia como se no orvalho da noite se fizesse a brotação. Toda manhã a menina corria para o bastidor, olhava, sorria, e acrescentava mais um pássaro, uma abelha, um grilo, escondido atrás de uma haste. O sol brilhava no bordado da menina. E era tão lindo o jardim que ela começou a gostar mais dele do que de qualquer outra coisa. Foi no dia da árvore. A árvore estava pronta, parecia não faltar nada. Mas a menina sabia que tinha chegado a hora de acrescentar os frutos. Bordou uma fruta roxa, brilhante, como ela mesma nunca tinha visto. E outra, e outra, até a árvore ficar carregada, até a árvore ficar rica, e sua boca se encher do desejo daquela fruta nunca provada. A menina não soube como aconteceu. Quando viu, já estava a cavalo do galho mais alto da árvore, catando as frutas e limpando o caldo que lhe escorria da boca. Na certa tinha sido pela linha, pensou na hora de voltar para casa. Olhou, a última fruta ainda não estava pronta, tocou no ponto que acabava em fio. E lá estava ela, de volta na sua casa. Agora que já tinha aprendido o caminho, todo dia a menina descia para o bordado. Escolhia primeiro aquilo que gostaria de ver, uma borboleta, um louva-deus. Bordava com cuidado, depois descia pela linha para as costas do inseto, e voava com ele, e pousava nas flores, e ria e brincava e deitava na grama. O bordado já estava quase pronto. Pouco pano se via entre os fios coloridos. Breve, estaria terminado. Faltava uma garça, pensou ela. E escolheu uma meada branca matizada de rosa. Teceu seus pontos com cuidado, sabendo, enquanto lançava a agulha, como seriam macias as penas e doce o bico. Depois desceu ao encontro da nova amiga. Foi assim, de pé, ao lado da garça, acariciando-lhe o pescoço, que a irmã mais velha a viu ao debruçar-se sobre o bastidor. Era só o que não estava bordado. E o risco era tão bonito, que a irmã pegou a agulha, a cesta de linhas, e começou a bordar. Bordou os cabelos, e o vento não mexeu mais neles. Bordou as mãos, para sempre paradas no pescoço da garça. Quis bordar os pés mas estavam escondidos pela grama. Quis bordar o rosto mas estava escondido pela sombra. Então bordou a fita dos cabelos, arrematou o ponto, e com muito cuidado cortou a linha.
O texto acima pertence ao livro Uma Idéia Toda Azul, de Marina Colasanti. Quando o encontrei na livraria, folheei e li, imediatamente o comprei e dei ao meu filho, de presente. Idéias raras de uma escritora pra lá de talentosa. Na dedicatória escrevi: ‘Filho, Houve um Tempo, você tinha um amigo invisível chamado Loque Sete (o loque hoje faz sentido). E a gente dançava – ele, você e eu – “Cantando na chuva”, embaixo do chuveiro. Acho que, por isso, nós dois gostamos tanto de ‘Além do bastidor’. Você teve pena que a menina ficasse presa. Mas, às vezes – um dia você vai perceber – as pessoas ficam, para sempre, presas ao *sonho. Sem pés e cabeça.'
* Sonho no sentido genérico, não específico. Escrito por Ofelia às 11h11 [ envie esta mensagem ]
Escrito por Ofelia às 12h44 [ envie esta mensagem ] A compulsão à repetição
Do livro O Ciclo da Auto-Sabotagem (BestSeller), capítulo 7, A compulsão à repetição: “A compulsão à repetição possui uma infinidade de características, e a mais importante delas é que os indivíduos que a apresentam têm pouco ou nenhum discernimento do que está causando suas dificuldades. Freud entendia isto como algo instintivo e, como tal, virtualmente imune à modificação. No trabalho com pessoas afetadas pela compulsão autodestrutiva, é possível observar como esse comportamento parece ser guiado por forças incontroláveis. Vez por outra, deparamo-nos com a notícia de que um tornado de grandes proporções está a caminho, e todas as indicações sugerem que é um furacão perigoso e ameaçador. Mas não há como pará-lo. Do mesmo modo, a compulsão à repetição é um impulso, uma força persistente, insistente, irrefreável e inevitável. O raciocínio é suspenso, o julgamento é interrompido, a inibição é abandonada. Não é algo muito diferente do instinto que os salmões têm de nadar contra a corrente, desovar e, então, morrer.”
Mas tem cura. Já vi esse filme. Escrito por Ofelia às 00h38 [ envie esta mensagem ] Stuck In A Moment You Can't Get Out OfU2 |
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