
telhado de vidro
iNtUiÇÃo Ofélia Crim ‘Minha intuição jamais me trouxe boas notícias’. É mais ou menos isto que Lília Cabral, no papel de Mercedes, diz em Divã. Há tanta coisa pra gente se identificar no filme (viva a Martha Medeiros!)... Quando ouvi a frase lá de cima, eu sorri. Sou muito intuitiva e em geral nunca para as boas notícias. Uma noite, meu filho tinha saído com a ex e, de repente, ao chegar à janela, vi os dois lá embaixo, conversando, em frente ao portão da garagem. Logo saíram novamente. Meu coração sofreu um aperto daqueles. Não me contive, liguei pro celular dele, que custou um pouco a atender. Assim que ouvi o ‘alô, mãe!’, perguntei sem mais aquela: “Vc foi assaltado?”. Breve silêncio, e ele: “Fui, fomos, saí com a B, estou aqui na delegacia com ela, mas está tudo bem”. Pior é ler um texto gentileza pura e achar que ele não passa disto mesmo, gentileza pura, que nada traz de palpável, concreto. Que leitura é esta que a alma da gente faz do texto alheio, com que segurança a gente pode afirmar que aquilo é somente aquilo, letrinhas enfileiradas sem significado escorado na alma de alguém, mas apenas dedilhadas? Ao filho a gente pergunta, alivia a ansiedade. A quem nos enviou as tais letrinhas, como perguntar? Coisas assim não se perguntam, sempre achei que a gente primeiro precisa acreditar no que lê. E se não for verdade, mais tarde a gente vê. Desta vez, no entanto, senti que iria doer se fossem letrinhas apenas com sentido gráfico. E nem dei tempo para o futuro dobrar a esquina. Meti os pés pelas mãos, falei no gestual das palavras – que, aliás, existe e a minha tal intuição percebe – e completei com um embrulho malfeito, nem sabia mais o que estava escrevendo. Agora eu me pergunto o que ganhei com meu gesto. Por que não esperei? Porque seria duro esperar. Seria duro porque eu estava assim tão desavisada, tão sem proteção, que aquilo faria um rombo na minha credulidade, na minha alma. Coisa de louco? É. Mas vem bem a calhar.
Escrito por Ofelia às 21h38
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Quase impossível pensar em outra atriz para compor a Mercedes, de Divã. Lília Cabral é única para o papel, quase um duplo sentido. Única mesmo. A sensação que se tem é a de que o filme é um monólogo levemente acompanhado, em que ela brilha do início ao fim.
Tudo que a Lília faz ela faz bem, empresta aos papéis uma luz muito própria, uma densidade só dela. Todas as mulheres deveriam ver o filme. Os homens também, mas principalmente as mulheres. Amei. O filme merece a bilheteria que está tendo, é ótimo, tem um roteiro bastante ágil. E Lília Cabral como estrela. Eu ri, me diverti muito. Quem não viu não sabe o que está perdendo.
Escrito por Ofelia às 23h32
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