
telhado de vidro
O ser (substantivo) humano
O ser (verbo) humano
O cerume’mano
No shopping, quase um quintal da minha casa de tanto que vou lá, saio do Livorno com a bandeja na mão em busca de um lugar pra sentar. Sábado e domingo é dia de muita gente e poucas mesas. E os freqüentadores habituais sabem que sempre cabe mais um na mesa para quatro pessoas que alguém ocupa sozinho. Já acostumada a zapear o local com meu olho-remoto pra ver se eu me sentaria já ou daqui a pouco, eis que ao olhar à esquerda dou de cara com uma mesa vazia e inteirinha pra mim. Sentei feliz. Mal me acomodei, uma moça bem morena se aproximou e sentou-se à minha esquerda, reclamona: “Ah, eu estava guardando o lugar”. Olhei pra ela uma vez o suficiente pra ver que ela tinha apenas uma bolsa nas mãos. E antes que eu dissesse ‘A’, uma bem loura chegou e a morena repetiu que ‘estava guardando o lugar, mas a moça (eu!) sentou assim mesmo’. Eu nada falei porque a loura foi emendando com um ‘sai daí, vem pra cá (para a mesa que a loura ocupava), você não é obrigada a ficar olhando pra cara desta FDP (por extenso)”. Desnecessário dizer, mas a FDP era eu. A morena botou a bolsa na cadeira, levantou-se e eu continuei a almoçar sem experimentar qualquer sentimento dentro de mim. Como ela estava ‘guardando’ a vaga eu não sei. Sei apenas que jamais me sentaria em um lugar já ocupado. Continuei meu almoço. Dois rapazes se aproximaram e me perguntaram se eu esperava mais alguém, se havia mais gente na mesa comigo. Sequer olhei pras duas. Apenas apontei com o dedo polegar para a mesa delas, nas minhas costas. Eles foram embora. Logo uma senhora, a filha e a neta fizeram a mesma pergunta e eu repeti o gesto incomum com o polegar. Eu tinha a impressão de que se dissesse qualquer coisa a loura, que me havia chamado de FDP, começaria um discurso. Silenciei. E aí ela começou a falar alto “Ô Livorno”, como se o pessoal do restaurante fosse atendê-la. Fez-se silêncio, se é que o silêncio era possível naquela hora de mesas lotadas. Eu estava na penúltima garfada quando um casal, sem nada dizer, sentou-se comigo. Deveria ser ‘amigo’ das duas. Ainda tive tempo de ouvir a mulher: “Não gosto de comer aqui”. Ao que ele respondeu: “É melhor que o Norte Grill”. Levantei muda, deixei a bandeja sobre a mesa e fui pegar o cafezinho na mesinha do restaurante. Silenciosa estava, silenciosa fiquei até deixar o shopping. O ser (substantivo) humano nem sempre cabe no ser (verbo) humano. Ou será o contrário? E aí a gente usa o cerume' mano. Surdez total.
Escrito por Ofelia às 22h33
[ envie esta mensagem ]
Autorização para morrer
E então me disseram que eu senti muito a morte do meu pai porque estava sozinha. Disseram ainda que se eu tivesse morrido há muitos anos - sei lá quantos - meu filho teria morrido junto. Mas que hoje, na minha idade, já não será a mesma coisa. E à medida que o tempo for passando, minha morte será uma coisa natural pra ele.
É, não deixa de ser consolador saber que posso ir.
Quando eu era menina, via meu pai ter aquelas horríveis cólicas de vesícula. Um dia, deitado na cama, se contorcendo de dor, segurou na minha mão e disse "é o fim, minha filha, é o fim", e eu saí correndo do quarto. Quem assistia meu pai era o Dr. Abel, que meu irmão buscava de carro no Leme distante, enquanto eu rezava para que meu pai vivesse até os 61 anos. Ah, não sei como fiz a conta na época. Sei que ele se foi 31 anos depois dos 61 e eu fiquei muito mal.
É, eu estava sozinha...
Escrito por Ofelia às 13h26
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|